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Mas você não é gorda, ela é!
Em Destaque, Empoderamento | 27 de mar de 2018

*Crônica

Depois que comecei a falar a palavra gorda de forma leve e em tom de normalidade nos ambientes que frequento, me deparei com uma situação um tanto quanto inusitada: vez ou outra pegava a galera usando a palavra para ferir ou atacar um desafeto qualquer.

É nesse momento que você respira, conta até mil e passa por três estágios em poucos segundos: o de negação, que é quando você não acredita que alguém tão próximo de você usa uma característica sua para atacar negativamente alguém; o de indignação por pensar “Alô galera! Tem uma gorda aqui do seu lado”; e revolta por não entender o porquê as pessoas ainda usam o peso do outro para diminuí-lo.

Como, na minha opinião, a melhor forma de fazer alguém próximo repensar o preconceito é fazê-lo se sentir mal pelo que disse, sem rodeios eu já digo “Ei, tem uma gorda aqui na roda e eu gostaria de saber por que o peso da fulana é argumento para criticá-la e diminuí-la. Se você fizer isso com ela, automaticamente está fazendo comigo também” obviamente depois da cara de espanto escuto a clássica resposta: “Mas você não é gorda, ela é” ou “mas você não é gorda como ela”.

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Chegamos ao ponto principal desse texto.

Que tipo de olhar seletivo é esse que enxerga no outro uma característica sua como ruim e em você algo admirável ou normal?

Esses são aqueles amigos que comentam “lacradora” na sua foto de biquíni no Instagram e ao mesmo tempo usam a #gordinha ou emoji de baleia em qualquer foto própria que mostre dois dedos de barriga descoberta.

A real é que eu não sei se a pessoa finge desentendimento ou se ela realmente não me veja como alguém semelhante à gorda que ela está xingando, mas essas situações me fazem questionar muito o olhar da sociedade sobre a mulher gorda.

Durante pelo menos duas décadas da minha vida eu me sentia completamente inferior a todas as mulheres que eu convivia pelo simples fato de ser gorda. Lembro que eu pensava que deveria ser uma pessoa neutra para não chamar a atenção de ninguém, afinal quando eu era notada sempre escapava uma piadinha ou referência pejorativa.

Com a ajuda do tempo e da maturidade superei o medo de me mostrar como uma gorda tão inteligente quanto qualquer outra mulher, com opinião formada a respeito de diversos assuntos e até mesmo como uma gorda vaidosa, mas aí quando superei essas barreiras passei a enxergar quão preconceituosas as pessoas que amamos podem ser e são.

*Inspiradas em sentimentos reais, as crônicas não tem compromisso com histórias verdadeiras e factuais da autora.

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