Quando o tic tac do relógio e o reflexo do espelho devem deixar de ser bússolas?
Em Empoderamento | 13 de abr de 2018

*Crônica

Uma hora e meia de atraso. Hunf! Que saco! Será que além de aprender a fazer letra feia e ilegível os médicos também estudam na faculdade de medicina como deixar um paciente mofando na sala de espera? Nota mental: perguntar para a Julia – minha amiga quase médica – se isso de fato é um ritual da galera do jaleco branco.

Já respondi todas as mensagens do Whatsapp, nenhum e-mail novo, Instagram e Facebook sem novidades. Olho no relógio e mais trinta minutos se passaram. A raiva aumenta. “Desse jeito vou perder a hora para manicure, cabeleireiro e depilação. Nossa! Não acredito que não vai dar tempo de ir ao shopping ver se eu acho um short mais bonitinho para combinar com meu cropped novo. Essa festa merece minha melhor produção”.

Mais t-r-i-n-t-a minutos se passaram e a wish list de peças desejo só aumenta, afinal, já que não tenho mais nada a fazer vou zapeando pelas minhas marcas favoritas e sonhando com aquelas peças que me deixariam ainda mais linda. Poutz! Acabei de lembrar que hoje eu não fiz minha 1 hora de esteira. Ah, mas deixa para lá, ninguém morre por um dia a menos de exercício físico não é mesmo?! Tudo bem que essa semana eu só fiz um dia, mas ossos do ofício. Não dá para dar conta de tudo não é mesmo?!

Meus devaneios e check list mental são interrompidos pela voz do médico chamando meu nome. FINALMENTE, hein doutor?! Levanto do sofá acompanhado pelos meus 15 envelopes de exames – francamente precisa de tudo isso? – do meu check-up anual e adentro a sala daquele senhorzinho fofo que me dá um sorriso que me faz perder a coragem de reclamar pelo atraso, mesmo que eu já tenha perdido meu horário na manicure.

Uma anotação aqui outra acolá, um vai e volta nas páginas dos exames, as folhas todas bagunçadas. Grifa um treco, circula outro e vou ficando agoniada. Será que precisa dessa demora toda para analisar meia dúzia de exames? Vamos aí doutor, quero conseguir chegar a tempo de pelo menos dar uma hidratada na juba.

Quando ele levanta a cabeça, vejo um olhar de preocupação por trás dos óculos, pelo menos eu acho que vi, e uma sensação gelada passa pelo meu corpo. Oh my God! O que será que tem de errado se estava tudo certo ano passado (quando foi mesmo a última vez que eu vim? Ok, um ano e meio atrás).

Nota mental 2: perguntar para a Julia por que os médicos fazem tanto suspense quando estão analisando nossos exames.

Você sente dores abdominais? Pergunta o médico. “Não. É. É, na verdade às vezes no lado esquerdo, mas nenhuma dor fora do normal”, gaguejo, mas respondo.

“É o seguinte, você está com um problema sério no ovário esquerdo ocasionado por problemas hormonais. Preciso que você faça exames pré-operatórios (PRÉ O QUEEE?), mande manipular esses remédios, agende uma consulta com cardiologista e anestesista para que eles te liberem para cirurgia. Veja que as guias dos exames estão todas assinaladas como “URGENTÍSSIMO”, mas ressalta isso no laboratório e quando você estiver com os resultados em mãos vem aqui e nem precisa marcar horário, pois preciso ver esses exames para ontem”.  Me diz o médico entregando um calhamaço de folhas de exames, receitas e encaminhamentos.

PERAÍ! Alguém dá pause? Quando foi que eu me perdi no enredo que eu não tô entendendo? Saio do consultório e o máximo que faço é balbuciar um até logo ao doutor e às recepcionistas. Abro minha agenda no mês de abril e a folheio até maio e ela está transbordando de post-its com compromissos e obrigações.

E se eu tiver que fazer uma cirurgia como irei cumpri-los? E meu trabalho? AI. MEU. DEUS! E meu trabalho? Em maio tenho um evento importante da empresa, não posso perder.

Nota mental 3: preciso ir atrás do traje de gala porque não posso estar nada menos do que lacradora nessa premiação.

Corro para casa, me penduro no telefone, agendo trezentas consultas, 599 exames, encomendo 700 remédios e ufa, pelo menos está tudo encaminhado. Olho pro relógio: CACETE, perdi a hora do cabeleireiro e da depilação.

Depois de uma semana, conto tudo o que aconteceu nessa semana turbulenta à minha psicóloga e acabo concluindo que às vezes a vida percebe que não mudaremos nossas prioridades ou diminuiremos o ritmo por conta própria, aí ela tem que intervir. Essa intervenção pode ser chatinha, mas no fim ela nos dá a chance de melhorar.

Qual o fim dessa história? Não sei! Só sei que hoje depois de mais de 20 anos eu pude perceber o quanto estamos aficionados ao externo do nosso corpo, mas esquecemos que a máquina que movimenta tudo isso requer cuidados, tá escondidinha lá dentro, que também acima das nossas carreiras e metas profissionais está nossa saúde e que o tempo pode ser melhor aproveitado.

Não espere sentar no consultório médico e tomar um balde de água fria para valorizar o que temos de melhor na vida: a saúde e o tempo!

*INSPIRADAS EM SENTIMENTOS REAIS, AS CRÔNICAS NÃO TÊM COMPROMISSO COM HISTÓRIAS VERDADEIRAS E FACTUAIS DA AUTORA

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